Copy, Paste

Pedro Albuquerque

O Windows é uma cópia do Mac Os, que, por sua vez, nasceu de uma cópia do interface gráfico das máquinas Xerox. A Delta Q copiou o Nespresso, a China os produtos ocidentais, a McLaren a Ferrari, a Levi's a Converse All Star. Ser-se copiado é o melhor atestado de admiração que uma marca ou pessoa pode receber.
Quem copia rende-se ao brilhantismo e aos resultados do original, ao mesmo tempo que assume, sem pudor,
as suas pr√≥prias limita√ß√Ķes, o seu medo pelo risco, o seu oportunismo. Admitindo que em muitos casos, copiar faz vender, copiar sempre faz vender menos, a m√©dio longo prazo. Isto porque, a velocidade com que hoje
se reciclam tendências faz com que a cópia tenha cada vez menos valor, para além de que, na maior parte das vezes, nunca atinge o nível nem o estatuto do original. Pelo contrário, as marcas que vivem permanentemente
a criar modelos de referência e que, por isso, são alvos de cópia, tendem a ser cada vez mais admiradas
e procuradas.

Eu defendo o registo de patentes e a propriedade intelectual. Isto não me impede de constatar (admitindo que haja experiências diferentes da minha) que são os medíocres os que mais se apoquentam com os direitos
de autor sobre qualquer porcaria que façam, ou seja, aqueles que nada criam de relevante que mereça ser copiado. Os mais criativos, por seu lado, tendem a negligenciar a possibilidade de serem copiados porque vivem no futuro, onde não há ninguém a copiar. Quanto mais obcecados estão com uma nova ideia, mais depressa esquecem a anterior, a qual entretanto, já está a ser copiada. Por isso, até parece razoável que o génio
da inovação não perca muito tempo a demarcar o seu território, isto porque entretanto já não está lá, partiu para outro, e assim sucessivamente.

A cópia tem também uma gravidade relativa. Quando o "pequeno" copia o "grande" chamam-lhe contrafacção, que é coisa que a ASAE resolve. Quando o "grande" copia outro "grande", mais tarde ou mais cedo, há um acordo de interesses que resolve o problema de ambos, e de umas tantas firmas de advogados.
O maior problema √© quando o "grande" copia o "pequeno", pois, aos olhos do consumidor, a ideia original acaba sempre por ser atribu√≠da ao "grande". Por muito que o "pequeno" ladre, ningu√©m quer saber. Por √ļltimo, quando o "pequeno" copia outro "pequeno" √© porque a ideia n√£o interessa ao "grande".

A cópia tem sinónimos que lhe conferem algumas nuances interessantes, por exemplo: imitação e inspiração.

A imita√ß√£o √© uma c√≥pia muito fiel e, quando n√£o tem uma finalidade puramente c√≥mica, resulta num Rolex de 20 euros, o tal que a ASAE resolve. Ainda assim, considero a imita√ß√£o menos nefasta que a c√≥pia "alike" uma vez que esta √ļltima √© mais dif√≠cil de processar legalmente.

A inspiração, sem as aspas de um eufemismo, é a versão benigna da cópia, se assim se pode chamar,
na medida em que usa uma referência já existente como motivação e elevação emocional, para gerar uma nova realidade relevante, um novo resultado com estatuto próprio. Na verdade, nada é completamente novo e nada sai de nós que não tenha entrado primeiro.

Mas, nem tudo √© negro quando falamos de c√≥pia. E, porque n√£o, se esta constituir o motor de arranque de uma economia? O Jap√£o, a China, e mais uns tantos pa√≠ses asi√°ticos, iniciaram o crescimento da sua ind√ļstria com base na c√≥pia de modelos ocidentais (excepto o das condi√ß√Ķes laborais). Acontece que acabaram por fazer melhor, e mais barato, que o original e, por isso, vingaram. No entanto, e apercebendo-se que n√£o podiam viver eternamente a copiar, partiram para a inova√ß√£o de produtos pr√≥prios, com excelentes resultados. H√° que encarar esta f√≥rmula: copiar pode ser solu√ß√£o, desde que se consiga, mais cedo ou mais tarde, ultrapassar
o modelo copiado.

Ainda assim, continuo a defender que a ideia original é sempre uma locomotiva, e, a cópia uma carruagem.
Olhe para a sua marca e veja quantas locomotivas e quantas carruagens tem. As carruagens serão sempre inevitáveis mas as locomotivas é que nos fazem mover.