Design Funerário

Pedro Albuquerque

(...) "Apercebo-me de que a nossa percepção sobre a utilidade do design pouco evoluiu desde os tempos
da Bauhaus e de Raymond Loewy.
O tal design de "agora" continua circunscrito a um culto elitista muito próprio, de marcas, comunicação, embalagens, moda, mobiliário, transportes, "gadgets", websites e interiores, com as variantes, design escandinavo, inglês, italiano, japonês, mais as influências do eco-design.
Este universo é vasto mas ainda assim pergunto, não estará a faltar nada?
Não deixa de ser intrigante a fraca incidência do design em eixos fundamentais da nossa vida como, por exemplo, a alimentação, o sexo e a morte. Resta saber se a renitência em entrevir nestas áreas se deve
à inércia dos agentes económicos, ou, à falta de uma nova mentalidade na indústria criativa do design. (...)

Este excerto de um artigo de opinião sobre design, que escrevi para a revista Meios & Publicidade, é a razão
da minha participação neste Seminário dedicado ao Sector Funerário.
A temática é simples: cruzar o design com o negócio funerário, tal como acontece em muitos outros sectores
da economia. Que benefícios este cruzamento nos reserva?

Como designer nunca tive qualquer tipo de experiência projectual no sector funerário, no entanto, acredito,
tal como acontece noutras áreas de negócio, que o design pode constituir um factor de criação de valor para
o produto funerário e até, de contribuir para a reformulação e criação de novos modelos de negócio nesta área.

A fé, o tempo e a homenagem

Por tradição, a fé religiosa tem sido o grande consolo para quem vive o luto. Daí se explica a predominância dos ambientes e símbolos eclesiásticos na arte e nos rituais funerários. Porém, nos mercados emergentes
de tendência laica, a falta de uma fé religiosa deixa um vazio que dificilmente resolve o desgosto pela perda
de um ente querido. Resta-nos o tempo e a homenagem que, por sinal, têm efeitos antagónicos. Enquanto
o tempo atenua a tristeza, a homenagem preserva a memória como tributo, ou seja, o primeiro apaga,
a segunda perpetua.

Quanto ao tempo, pouco podemos fazer para acelerar o seu efeito, já em relação à homenagem, existe potencial para se desenvolverem novos produtos no sector funerário. O ser humano tem a necessidade emocional de homenagear os desaparecidos que marcaram positivamente a sua existência. E isto, tanto
é válido numa cultura religiosa, como laica, conforme provam uma série de exemplos históricos: a grandiosidade da arte Egípcia; a beleza tocante do Requiem de Mozart; o mausoléu Taj Mahal "considerado uma das sete maravilhas do mundo", o imponente túmulo de Napoleão; e a geometria impressionante da disposição dos crucifixos do Cemitério na Normandia, em memória dos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Nos tempos que correm existem também sinais sobre a necessidade de viver a homenagem póstuma com outra amplitude, outros critérios simbólicos e estéticos: a arquitectura inovadora do cemitério de Brasília, desenhado em espiral; alguém que encomendou uma lápide especial a um arquitecto modernista; empresas como
a Volkswagen Funerals que usa exclusivamente viaturas brancas (clássicas e modernas) desta marca alemã,
e, a americana Funeral One que vende software destinado à produção e edição de impressos, filmes e páginas de internet, pré-formatadas, para memoriais fúnebres. É claro que a motivação para criar novas fórmulas
dá também origem a outro género de artigos funerários, no mínimo hilariantes, tais como, urnas com a ilustração de um iphone, outras a imitar uma caixa de encomenda postal, e ainda, outras em forma de peixe.

Não obstante estes sinais de mudança, o produto funerário continua estagnado no tempo. Predomina ainda
o neoclassicismo de matriz religiosa, pesado, escuro e tenebroso, no qual uma significativa parte do mercado
já não se revê. As opções de compra de um serviço funerário são quase sempre feitas num período emocionalmente difícil, com falta de tempo, alternativas, e, muitas vezes, sem poder de compra. Quem sabe não serão estas circunstâncias que estão na origem de um mercado resignado? O qual, por sua vez, pouco estimula a inovação neste sector? Não deixa de ser sintomático que, em Portugal, só existam quatro fornos crematórios, o que, como todos sabem, é manifestamente insuficiente para as necessidades do mercado actual.

Como designer, e também, como potencial consumidor (espero mais que pela primeira condição) considero existir um enorme potencial por explorar quanto à estética, ao simbolismo, e, à dignidade do momento derradeiro de homenagem. A sala de velório poderá vir a ser um espaço mais confortável, onde seja possível editar imagens, textos, música, para além de outros registos representativos dos gostos e vivências da pessoa que nos deixa. A viatura, a urna, as lápides e os cemitérios são passíveis de serem inovados, captando linguagens estéticas mais contemporâneas, tal como sucede na arquitectura, no mobiliário, nos transportes,
nos aparelhos electrónicos, na comunicação, nas artes plásticas e na música. À luz desta nova filosofia também cabem as novas tecnologias de informação, em especial a internet, como uma plataforma de tributo funerário
de grande difusão e longevidade.

Como conclusão, deixo aqui um desafio:
A abertura da minha agência de design à colaboração, tanto com agentes, como com produtores de artigos funerários, em projectos de investigação e desenvolvimento que visem o desenvolvimento de modelos
de negócio, marcas, modelos de comunicação, produtos, serviços, espaços e ambientes.

Eis os benefícios de um processo de inovação a este nível:
. Sensibilização, captação e fidelização de mercados.
. Impacto nos meios de comunicação, gerando publicidade gratuita.
. Impacto do marketing "boca a boca", cada funeral reúne dezenas, ou mesmo, centenas de potenciais   promotores de um serviço.
. Combater a crise económica instaurada.

Na minha agência, o design tem contribuído para a afirmação, e sucesso, de empresas e produtos de variados sectores da economia. De igual modo, acredito na capacidade do design como catalisador do processo
de mudança no sector funerário.

Exposalão Batalha, 14 de Março 2009