Design Now

Pedro Albuquerque

Eis-me numa FNAC a consultar o livro "Design Now!" de Charlotte e Peter Fiell, edição Tashen. Mais um, entre muitos, com uma selecção notável de novos projectos de design bem documentados e fotografados.
Ainda assim, não consigo evitar uma sensação de "déjà vu". São sempre as cadeiras, os candeeiros,
os produtos electrónicos, os veículos, etc. Apercebo-me de que nossa percepção sobre a utilidade do design pouco evoluiu desde os tempos da Bauhaus e de Raymond Loewy. O tal design de "agora" continua circunscrito a um culto elitista muito próprio, de marcas, comunicação, embalagens, moda, mobiliário, transportes, "gadgets", websites e interiores, com as variantes, design escandinavo, inglês, italiano, japonês, mais as influências
do eco-design. Este universo é vasto mas ainda assim pergunto, não estará a faltar nada?
Não deixa de ser intrigante a fraca incidência do design em eixos fundamentais da nossa vida como por exemplo, a alimentação, o sexo e a morte. Resta saber se a renitência em entrevir nestas áreas se deve
à inércia dos agentes económicos, ou, à falta de uma nova mentalidade na indústria criativa do design.

Design Alimentar
Corte-se uma maçã na longitudinal, ao contrário do habitualmente fazemos, e obtemos um desenho atípico
e surpreendente. Uma simples mudança de abordagem pode ser elucidativa daquilo que o design pode ainda fazer pela indústria alimentar.
O prazer de uma Viennetta da Olá começa bem antes de a saborearmos na boca. O primeiro estímulo é visual, proporcionado pela perfeição das ondas cremosas que dão corpo a este gelado em forma de tarte. De seguida partirmos uma fatia e ouvimos o quebrar estaladiço das lâminas de chocolate no seu interior, as que depois, se derretem na boca num contraste perfeito com o creme, consumando-se assim uma experiência multissensorial única. Passados 26 anos sobre o seu aparecimento, a Viennetta continua a ser uma das principais referências da Unilever, companhia que há muito sabe o que o design pode fazer pelos seus produtos, ou não fosse
o gelado Magnum outro dos seus grandes sucessos.
Outro ícone gastronómico de sucesso é o nosso pastel de nata de Belém, o qual começou a ser comercializado no século XIX pelos monges do Mosteiro dos Jerónimos. Não obstante o design estar longe de existir nessa época, o pastel de nata tem todos os atributos de uma peça de design de excepção, forma e cores apelativas, contraste táctil e gustativo perfeito, e viabilidade produtiva. Arrisco dizer que a maioria dos designers
de alimentos são os chefes de cozinha. Algo se perde, então, por o seu trabalho ter mais aplicação
na restauração do que na indústria alimentar e mais expressão nos livros de receitas do que nos de design.

Design Sexual
Tal como a gastronomia não serve só para nutrir, escusado será dizer que o sexo não serve só para procriar, aliviar a tensão, ou até, amar. Para muitas pessoas a beleza do sexo está nos preliminares, envolto em fantasia e fetichismo. No entanto, muito deste mercado não se revê na "vibrolândia" à disposição nas sex-shops.
Num contexto de inibição sexual que culturalmente ainda subsiste, e para o qual o facilitismo da internet só tem servido para adiar o problema, não estará o mercado da libido a precisar de alternativas? Por outro lado, será que a comunidade de designers terá a coragem para submeter o melhor da sua criatividade ao serviço do prazer sexual? A resposta não é imediata mas acredito haver territórios por explorar para além dos lugares comuns assentes em viagras, manuais do Kamasutra, chicotes ou preservativos com sabor a chocolate... O audio visual porno é ele também espelho deste cenário, oscilando no seu pequeno mundo entre hardcore explícito
e mecânico e softcore meloso feito de poses estereotipadas.
Bem mais interessantes são as fotografias de um Helmut Newton, de um Terry Richardson ou de uma Hellen Von Unwerth. Pelos vistos, a inspiração para uma vida erótica e sexual mais original e intensa acaba por ganhar o seu principal alento nas artes como a fotografia, o cinema, a literatura e a música, enquanto o melhor contributo do design fica-se pelos derivados da cosmética e da moda, como a maquilhagem, perfumaria,
a lingerie, o calçado, e pouco mais. Ao nos depararmos com as botas e sapatos compensados e sem salto traseiro do designer Antonio Berardi, logo nos apercebemos que o seu principal atributo não é propriamente
a mobilidade... Talvez o segredo seja não evidenciar o sexo, mas sim, induzi-lo.

Design Fúnebre
O que é que faz na vida? Sou designer. Designer de quê? Designer fúnebre. Eu próprio ficaria a olhar...
A sociedade, principalmente a ocidental de tendência laica, lida mal com a morte.
No entanto, a morte de um ente querido, sendo um momento de tristeza inconsolável, é também é um momento de homenagem sublime. O peso que a arte egípcia tem na história bem como a beleza tocante de um Requiem de Mozart, são disso prova.
Já todos presenciámos cerimónias fúnebres, e, vendo bem, são em si mesmo deprimentes, desde a urna
à sepultura, passando pela sala de velório, a viatura fúnebre e as doses industriais de flores. Este momento
de homenagem derradeira merecia ter outra estética, outro simbolismo, outra dignidade. O velório deveria então, traduzir-se num espaço onde fosse possível editar imagens, textos, música, ou outros registos representativos dos gostos e vivências da pessoa que nos deixa. A viatura, bem como a urna e os cemitérios, poderiam ter outra apresentação, bem diferente do neoclassicismo mórbido dominante, captando outras vertentes estéticas mais contemporâneas da arquitectura, do mobiliário, das artes plásticas e da música.

O maravilhoso "Design Now " nas nossas vidas devia ser muito mais do que apenas, cadeiras, vestidos, automóveis e produtos electrónicos.