Látex

Pedro Albuquerque

Dizia o bilhete: "Quando chegares vai para a sala, põe a tocar o CD que me ofereceste, apaga as luzes, senta-te no sofá e não saias de lá até eu aparecer..." Luzes! Ao som de "Vulnerable" de Tricky, ela apareceu de “stilettos”, exibindo um provocante "catsuit" em latex preto, uma nova pele tensa, esticada, que lhe adelgaçava ainda mais o seu, já de si, torneado corpo, especialmente a sua delicada cintura, que, comprimida violentamente pelo corpete integrado, se transformara num istmo estreito de união entre o tronco e as ancas.

"Elastic Mind" seria interpretado como um fetiche deste género, até 2006, ano em que o MoMA, em cooperação com a revista SEED, juntou uma comunidade internacional de cientistas, designers e arquitectos para debater
os novos paradigmas da ciência, na sua relação com o homem e a sociedade. O resultado deste encontro foi, simultaneamente, alarmante e promissor.

Alarmante, por evidenciar uma crescente ruptura entre a ciência e o homem. Na verdade, os objectivos de vida das pessoas, bem como as suas capacidades para repentinas, e sucessivas mudanças, dificilmente acompanham o alucinante ritmo da evolução cientifíca.

Promissor, por apontar o design como solução para criar o desejado elo entre a ciência e as pessoas. Só este, pode proporcionar um fruir mais humanizado dos novos paradigmas científicos e tecnológicos.

A iniciativa do MoMA / SEED culminou num projecto de natureza experimental, com o metafórico título "Elastic Mind", uma mente capaz de aproximar o homem da ciência, de forma flexível e, não abrupta. Este projecto deu origem a novos conceitos de design que, focalizados nas grandes mudanças científicas, tecnológicas e sociais do nosso tempo, revelaram novas formas de pensar em ambiente de equipa multidisciplinar, novos modos
de interacção com os objectos, novas formas de comunicar, de produzir, de progredir em "open source",
de sustentabilidade. Uma boa parte destes projectos encontra-se exposta no MoMA.
Como fica longe, eis o link para ver online: http://www.moma.org/exhibitions/2008/elasticmind/

A pertinência do movimento "Elastic Mind" também se comprova fora do contexto MoMA. Um dos casos mais exemplares é o projecto "One Laptop per Child", promovido por Nicholas Negropont. Um computador portátil destinado às crianças mais desfavorecidas, dos países subdesenvolvidos. Este portátil "verde" é fruto do esforço colectivo entre cientistas, designers e engenheiros que aliaram as experiências recolhidas no terreno,
ao conhecimento tecnológico, e, ao espírito inventivo. O resultado é uma harmonia singular de forma e função; uma máquina flexível, de custo reduzido ($100), com uma eficiente autonomia energética, fiável, com a qual muitas nações do mundo emergente, podem saltar décadas de desenvolvimento.

Elvira Fortunato, cientista portuguesa, especializada em microelectrónica, desenvolve, com a sua equipa,
o transístor transparente para ecrãs LCD, uma tecnologia 100 vezes mais rápida que a tradicional, a qual promete revolucionar a indústria das telecomunicações monitorizadas. Como se não bastasse, inventou recentemente os transístores de papel, o que significa, num futuro próximo, termos o vídeo a animar capas
de revista, jornais, cartazes, t-shirts, e, porque não, "catsuits"...

Designers, preparem as vossas "mentes látex"!