A Marca Lisboa

Pedro Albuquerque

O valor de uma marca é um somatório de vivências.
Nesse sentido, as marcas que nos proporcionam mais e melhores vivências, seja na vida prática,
ou na emocional, s√£o por norma, as mais valiosas.

A pol√©mica em torno da amplia√ß√£o do terminal de contentores de Alc√Ęntara, leva-me a reflectir, uma vez mais, sobre Lisboa e a import√Ęncia da sua marca.

Esta cidade tem o privil√©gio de ser banhada por um rio onde o sol se p√Ķe na foz, e que, na imensid√£o monumental do seu estu√°rio, acolhe majestosos navios transatl√Ęnticos, como o Queen Mary II, elegantes veleiros, ilustres cacilheiros, e at√©, uma ponte que se confunde com a de S. Francisco, e, um "Cristo"
que se confunde com o do Rio de Janeiro. O Tejo √© o atributo que melhor caracteriza e diferencia a marca Lisboa. Pena √©, que alguns, por insensibilidade, ignor√Ęncia, ou gan√Ęncia, n√£o saibam dar o devido valor a este, e outros, atributos singulares da cidade. Pior que isso, s√£o precisamente esses que, vezes de mais, nos calham na rifa para governar e decidir sobre o destino dos nossos tesouros.

A descaracterização da marca.
O deslumbramento, a especulação e a corrupção são vírus impiedosos para os quais Lisboa nunca teve suficientes anticorpos. Em terrenos outrora doados à cidade por Eugénio de Almeida, e que se destinavam
à construção daquilo a que se veio chamar Parque Eduardo VII, acabou por aterrar um desses caixotes
do El Corte Ingl√™s; Um erro de casting chamado Tom√°s Taveira trouxe-nos aberra√ß√Ķes como as Amoreiras
ou as Olaias, e, quando anos mais tarde, j√° tudo parecia ter acalmado, eis que herd√°mos, em Alvalade,
o est√°dio mais feio e piroso do mundo; O m√≠tico cinema √Čden, uma das mais not√°veis pe√ßas arquitect√≥nicas
que Cassiano Branco nos deixou na "avenida", foi integralmente desventrado, e, já sem alma, transformado num hotel; Um dos ícones mais característicos da cidade, o táxi preto com o tejadilho verde, deu lugar ao táxi beije que, vá-se lá saber porquê, é tal e qual o modelo alemão. Felizmente ainda nos restam os magníficos
e tradicionais eléctricos amarelos, sem camuflagem de publicidade, uma decisão inteligente de valorização
da marca Carris, com proveitos para a marca Lisboa.

A invers√£o nos valores e prioridades da marca.
Ninguém pega no Pavilhão de Portugal, conhecido como o "edifício da pala" do Siza Vieira, mas em contrapartida, o que não falta à cidade, são novos investimentos para a construção de avultados edifícios;
Com 60.000 focos desabitados, Lisboa desertifica e apodrece, mas, o importante é eliminar os malditos "graffiti" no Bairro Alto; Seria fantástico termos uma ciclovia ao longo da zona ribeirinha, mas, o que realmente interessa é cortar a circulação rodoviária ao domingo no Terreiro do Paço; o estado degradado das estradas
é escandaloso, porém, a verdadeira segurança rodoviária está nos radares que espalharam pela cidade
e que nos for√ßam a circular √† velocidade de carro√ßa; A ilumina√ß√£o nocturna da Torre de Bel√©m n√£o podia ser mais l√ļgubre, e, ainda assim, gastamos milh√Ķes na promo√ß√£o do produto tur√≠stico portugu√™s.

A marca que resiste.
Mas Lisboa resiste, e, esta qualidade espec√≠fica, √© tamb√©m ela, uma das imagens de marca da cidade. Levou com o terramoto de 1755, o inc√™ndio no Chiado mais os "deslumbramentos", e, apesar de tudo, levanta-se todos os dias de cara lavada e esperan√ßosa, expondo o seu universo de virtudes e confus√£o, desafios e contratempos, pouco se importando se a est√°tua de Dom Pedro IV de Portugal no Rossio √©, afinal, a do imperador Maximiliano do M√©xico. Ela √© a Lisboa do Cam√Ķes, do Bocage, do E√ßa, do Pessoa, do Almada, a dos caf√©s lend√°rios, Nicola, Martinho da Arcada, A Brasileira. E, al√©m de resistente, √© tamb√©m ciumenta, chamando as aten√ß√Ķes s√≥ para si. Por isso, n√£o se cansa de nos estimular os sentidos, com o cheiro da castanha assada, os gritos das gaivotas em f√ļria, os ecos do fado misturados com os do "techno" numa rua perdida do "Bairro", os olhos, as bocas,
e as caras bonitas, a paz azul das profundezas do Oceanário, os Jardins perdidos da Gulbenkian, a tão emblemática calçada com os graciosos rendilhados de calcário e basalto, o fim da tarde de Verão como
um pren√ļncio er√≥tico de noites quentes e intermin√°veis.

Lisboa marca-nos.