Dois anos para mudarmos a bandeira

Pedro Albuquerque

Em 2010 comemora-se o centen√°rio da Rep√ļblica Portuguesa. Eis um momento politicamente oportuno para adoptarmos uma nova bandeira para Portugal. A bandeira √© o elemento visual mais representativo da marca
de um país, e nenhum outro símbolo de nação está tão amplamente difundido pelo mundo. O seu impacto
é de tal forma importante que, no nosso caso particular, não podemos refutar eternamente a hipótese
de questionar as suas virtudes, argumentando raz√Ķes de puro conservadorismo ou populismo demag√≥gico.
A verdade é que temos uma bandeira antiquada, com uma combinação de cores folclórica, especialmente quando colocada lado a lado com uma boa parte das bandeiras de outros países, a começar pelas dos nossos vizinhos europeus.

Sublinho o facto de Portugal ser, acima de tudo, um pa√≠s atl√Ęntico com uma not√°vel Hist√≥ria mar√≠tima e que, recentemente, se assumiu, e muito bem, como a "Europe¬īs West Coast". Este factor diferenciador e constante da nossa identidade pressup√Ķe uma bandeira cujo tom dominante deveria ser o azul, nunca uma conjuga√ß√£o
de verde, vermelho e amarelo. √Č sintom√°tico vermos organiza√ß√Ķes que sustentam a sua imagem na identidade nacional fugirem √† paleta de cores da bandeira. A Selec√ß√£o Nacional de Futebol aboliu os cal√ß√Ķes verdes
e as camisolas vermelhas, adoptando um equipamento integralmente grená. A TAP, na sua nova sigla de marca, substituiu o "verde bandeira" por um "verde lima". Na imagem da Presidência Portuguesa da União Europeia 2007, por mea culpa e de quem a aprovou, a omissão do verde e a secundarização do vermelho dá lugar
a um azul de vários cambiantes. Muitas das empresas portuguesas, especialmente as que apostam no mercado externo, prescindem deliberadamente de usar a imagem ou as cores da bandeira por não constituir valor acrescentado para as suas marcas e produtos. Ainda assim, algumas delas utilizam a designação "Portugal", prova de que nem sempre o problema de valor reside na imagem do país mas sim na imagem da sua bandeira.
Contrariamente a tudo isto, assistimos à força expressiva da bandeira do Reino Unido - a célebre Union Jack,
no tejadilho do Mini, nas portas dos frigoríficos SMEG e no mundo da moda, à frequência com que a bandeira do Japão (a minha favorita) é utilizada nas marcas nipónicas como a Nissan e a do seu novo concept car,
o Pivo2, e, rodando o globo, ao destaque dado à bandeira do Brasil nos produtos da marca Havaianas.

Pondo de lado a sem√Ęntica, tamb√©m existem problemas a n√≠vel formal. A nossa bandeira √© densa, complicada
e, por isso, difícil de comunicar. Tem excesso de elementos, fruto da nossa veleidade em querer contar
a História de Portugal num pedaço de tecido. Se soprar brisa em vez de vento, lá se vai a "História" perdida
no drapejar incerto, nos ecr√£s de telem√≥vel fica reduzida √† insignific√Ęncia de meia d√ļzia de pixels.

De nada serve mudar a bandeira se n√£o mudarmos o pa√≠s. S√≥ que, mudar o pa√≠s pressup√Ķe, entre muitas outras coisas, mudar a bandeira, o que j√° n√£o seria a primeira vez. E quando mudarmos, o "Buzz Portugal" ter√° a maior repercuss√£o internacional que alguma vez o nosso Pa√≠s viveu. Haja vontade e coragem pol√≠tica para o fazer,
e j√° em 2010.