Nabos, Cenouras e Seixos 1
o futuro em Sopa de Pedra

Teresa de Carvalho

Nova escala
O desafio do s√©culo XXI √© fazer com que o mundo global funcione. No s√©c. XX, o ‚Äúglobal‚ÄĚ chegou mas n√£o funcionou em tudo: o agravamento das assimetrias entre classes, pa√≠ses, culturas, continentes legou uma heran√ßa de problemas e conflitos por resolver.

No mundo ocidental, j√° existe a consci√™ncia de que estamos todos ligados e de que os desequil√≠brios - de todos os tipos - se pagam caro (terrorismo, cat√°strofe ambiental, emigra√ß√£o em massa, guerra). Esta √© a consci√™ncia que se tornar√° dominante. Se pensarmos que as estruturas de Governo, mesmo as transnacionais, est√£o obsoletas (todas emergentes do p√≥s 2¬™ Guerra e dominadas pelas pot√™ncias de ent√£o), Portugal pode e deve posicionar-se como um dos pa√≠ses com legitimidade (pela voca√ß√£o, experi√™ncia e aus√™ncia de pretens√Ķes dominadoras) para ocupar posi√ß√Ķes de regula√ß√£o e de arbitragem. Os l√≠deres de decis√£o √† escala global dever√£o deixar de ser escolhidos pelo peso econ√≥mico do mundo mas sim pela capacidade de representa√ß√£o equitativa de diferentes interesses e culturas, pela busca real do melhor bem comum. A pol√≠tica ser√° cada vez mais √† escala global e essa mudan√ßa de escala ser√° a grande diferen√ßa sobre o s√©culo XX.

Os desafios para Portugal s√£o:
na governação:
- a justiça,
- a modernização/eficácia administrativa e o estímulo à economia e à iniciativa,
- a gestão demográfica (estímulo à natalidade, estímulo / atracção controlada de imigrantes e de talentos, aproveitamento de saberes e das capacidades de criação de riqueza dos mais velhos) - e a afirmação no mundo (pela diplomacia);
na sociedade:
a educação e os valores: saber trabalhar, acabar com a cultura igualitária e injusta de não recompensar quem é melhor, quem procura, quem arrisca; passar a penalizar (sem drama) o pior, saber responsabilizar desdramatizando o erro, salientando a penalização como conquista de aperfeiçoamento; saber liderar, saber gerir, criar uma cultura de mérito perceber que educar é um movimento de dentro para fora; fazer da educação um processo em que primeiro cada um percebe o que gosta, aquilo em que é bom, para depois poder formar e aproveitar as capacidades específicas.

Vencidos estes desafios, a competitividade virá (uma cultura de iniciativa, de mérito e de alegria pelo sucesso).

Sociedade, Tendências, Futuro

Na entrada em 2007, o espelho da capa da TIME foi um golpe de g√©nio ‚Äď o poder da edi√ß√£o passou para as m√£os an√≥nimas, o mundo do You Tube, dos blogs, das redes, dos conte√ļdos livres vai continuar a crescer. Note-se que nalguns casos, essa liberdade de produ√ß√£o j√° atingiu a forma de economia de troca directa (sites de ‚Äúeu tenho isto e procuro aquilo‚ÄĚ). Mas n√£o creio ‚Äď e a cren√ßa √© inspirada no ‚Äúcomo funciona a natureza humana, o que nos move‚ÄĚ ‚Äď que o crescimento de uma consci√™ncia global (com no√ß√£o da necessidade dos equil√≠brios) ameace a sociedade de consumo. Vamos apenas ter cada vez mais o que j√° temos no ocidente ‚Äď um consumo com valores que as marcas/empresas n√£o podem pisar (respeito pela natureza, responsabilidade social, etc.). e em que o cidad√£o comum √© cada vez mais tamb√©m ele criador de produtos (em 2¬™ m√£o, transformados, reciclados ou criados de raiz). O desejo de ser e de ter mais e melhor vai existir sempre, enquanto a esp√©cie existir.

A cultura das novas gera√ß√Ķes continuar√° menos liter√°ria e mais audiovisual, apoiada nas comunica√ß√Ķes digitais e nos gadgets tecnol√≥gicos que, nalguns casos, v√£o evoluir ao ponto de integrar o corpo (bi√≥nica). As novas gera√ß√Ķes cimentar√£o a mobilidade e a globaliza√ß√£o quer por se moverem, estudarem e trabalharem em diferentes pa√≠ses, quer por se corresponderem com amigos distantes. O imagin√°rio que os formou tamb√©m refor√ßa a mudan√ßa de escala de que falei ‚Äď as fic√ß√Ķes infantis e juvenis foram √† escala gal√°ctica (Dragon Balls √© um bom exemplo) ou centradas na mistura de dimens√Ķes (ex. Harry Potter) ‚Äď em todo o caso, um imagin√°rio que cria a ideia de unidade da esp√©cie humana (acima de na√ß√Ķes, ra√ßas, culturas) num universo mais vasto do que o do planeta (a ‚Äúcasa‚ÄĚ que temos que proteger mas a que um dia teremos que acrescentar novas casas, novas moradas) e onde existem inimigos e aliados a descobrir.

O hedonismo, a procura do prazer, da beleza e da perfei√ß√£o, a par do aumento do conhecimento sobre o funcionamento do corpo humano, v√£o continuar a espalhar a preocupa√ß√£o com a sa√ļde, a boa forma f√≠sica, a elimina√ß√£o de ‚Äúdefeitos‚ÄĚ. A par desta busca, uma outra, a de um mundo espiritual com valores globais de defesa da vida ser√° decisiva. No s√©c. XXI, uma das grandes evolu√ß√Ķes necess√°rias √© a da uni√£o da consci√™ncia religiosa. Independentemente do nome de Deus ou dos Deuses, as grandes religi√Ķes dever√£o partilhar a mesma consci√™ncia de que Deus √© bem, Deus √© Vida e a convic√ß√£o de que as escolhas humanas entre bem e mal t√™m que ser exercidas em liberdade. Ser√° decisiva embora demorada a ultrapassagem do fanatismo religioso (e mais conseguida pela internet do que pelo confronto), n√£o para uma sociedade livre de religi√£o ou de transcend√™ncia - a liga√ß√£o √† transcend√™ncia √© a mola de for√ßa da nossa esp√©cie, do seu caminho de descoberta e de aperfei√ßoamento, que impede o decl√≠nio num vazio civilizacional - mas para uma sociedade onde existe esta uni√£o ‚Äď se n√£o de religi√Ķes, pelo menos de consci√™ncia religiosa.

A massifica√ß√£o do design, da tecnologia, da moda, dos destinos tur√≠sticos vai continuar, criando o contraponto das √©lites para o √ļnico, o reservado, o n√£o conhecido. (Por ex. no outro dia, tropecei numa loja que vende pe√ßas √ļnicas -de seda ou algod√£o- desenhadas c√°, feitas √† m√£o na √ćndia, muito bem acabadas, apenas razoavelmente caras e entregues em sacos de seda estampada. Pode explodir de sucesso.)

As cidades competirão entre si por um lugar mais alto no ranking da qualidade de vida e na atractividade de talentos. O tele-trabalho e os projectos em rede vão continuar a crescer e passarão a merecer incentivo pelo acesso ao talento global, pela poupança de energia que representam e pelo contributo que dão à qualidade de vida e às possibilidades de repovoamento fora dos centros urbanos que assim se abrem.


Lisboa, Julho de 2008