Ideias para Transformar a Comunicação

Pedro Albuquerque

As mensagens são o tecido da vida. Comunicamos com tudo o que podemos: falamos, gritamos, escrevemos, desenhamos, gesticulamos, cantamos. Um dia estendemos a mão para uma esmola, noutro para uma festa
e, não raras as vezes, fechamos o punho. Comunicamos pelo estilo e pelo comportamento; Explícita ou, subtil, quando não perdida nas entrelinhas, há sempre uma mensagem em tudo aquilo que fazemos, ou não fazemos, sempre na expectativa de uma reacção de outrem. O bebé que chora, o vestido que seduz, o recado na porta
do frigorífico, a notícia de última hora, o perfume, o livro, o lugar vazio na mesa, é assim a nossa natureza comunicativa: rica, diversificada, surpreendente. O que há afinal de errado no modo como sempre comunicámos para haver necessidade de "transformação"?

Talvez nada. A nossa natureza comunicativa, desde que autêntica e livre, deve continuar assim. O conteúdo
do que comunicamos também, porque são ideias e as ideias são já transformação. Resta-nos a forma
e a estrutura, e, estas sim, são componentes da comunicação em permanente necessidade de transformação.

Comecemos pela estrutura, situando a análise na Era da sociedade de massas. Partindo do período dos grandes regimes totalitários, no séc. XX, observamos aí uma comunicação instrumentalizada apenas por um único emissor, o poder absoluto. Mais tarde, com a proliferação da democracia, da economia de mercado,
da liberdade de expressão, e da afirmação da TV, passou a haver, não um, mas vários emissores dominantes - governantes e políticos, comunicação social, marcas e pop stars - Embora o poder da comunicação passasse
a estar repartido por vários protagonistas, a estrutura mantinha-se igual, um forte emissor para uma vasta audiência. Só mais recentemente, com a globalização, a internet e as redes telemóvel, esta estrutura se alterou. Passámos a poder ser emissores e destinatários em simultâneo, pop stars no Myspace, opinion makers na blogosfera. Libertos de horários de emissão, da localização geográfica e do contexto cultural envolvente, formamos grandes e pequenas comunidades interactivas em torno de focos de interesse tão díspares como
o Youtube, a apicultura, o Linux, as Suicide Girls, os jogos Wii, ou, a arquitectura. É neste ambiente que nasce
o – eu - editável à escala global, com a possibilidade de se desdobrar em diferentes identidades, consoante
a cultura das diferentes comunicades a que adere. Algo que, na verdade, sempre aconteceu, assumimos ser uma pessoa quando trabalhamos, outra em alturas solenes, outra em família, outra com os amigos e ainda outra no epicentro da nossa privacidade. Por isso, não vejo necessariamente a internet como um catalisador
da falência da personalidade. Bem pelo contrário, vejo com isto uma crescente adaptação dos meios
de comunicação à riqueza multifacetada do ser humano. Conceber novas arquitecturas de redes que nos permitam interagir com mais destinatários, expandir o nosso conhecimento, e, exprimir a totalidade do nosso ser, é uma boa ideia para transformar a comunicação.

Também na forma, acredito que os projectos tecnológicos mais conseguidos na área da comunicação sejam aqueles que melhor se adaptam ao nosso modo de ser. Ninguém nega o romantismo de se enviar um postal ilustrado, com direito a selo e carimbo, mas também já não passamos sem o e-mail. A necessidade de atrairmos admiração sobre nós justifica o sucesso de sites como o Facebook ou o Flickr. O gosto pela música, sem hora nem local marcados, justifica o sucesso do formato MP3 e do iPod.
Mas nem sempre os instrumentos de comunicação de que dispomos respeitam a nossa natureza. As imagens televisivas do 11 de Setembro, o enforcamento do Saddam, o colapso do Fehér em pleno jogo, foram repetidas, vezes sem conta, na TV e no YouTube, até perdermos o último pingo de emoção, sobrando, no final, a visão racional das coisas, ou pior, a indiferença. Para agravar esta dormência psicológica, imagens como estas convivem lado a lado com anúncios que nos prometem a felicidade.

Isto leva-me a concluir que o futuro da comunicação passa por encontrar a melhor forma de orientar os avanços da tecnologia em função da nossa verdadeira natureza.

Encontrei no bestseller "A Nova Inteligência", de Daniel H. Pink, uma boa luz para fazer este caminho.
O livro trata, com fundamento científico, da crescente importância do hemisfério direito do nosso cérebro. Segundo o autor: "Estamos a passar de uma economia e sociedade assentes nas competências características da Era da Informação, lógicas, lineares, quase o decalque do funcionamento de um computador, para uma economia e sociedade erigidas sobre as capacidades criativas, empáticas e de pensamento holístico, características do que se está a construir no seu lugar: a Era Conceptual." Mais adiante acrescenta:
"Os agentes desta mudança têm uma localização bem precisa: estão dentro da nossa cabeça. O nosso cérebro divide-se em dois hemisférios. O hemisfério esquerdo é sequencial, lógico e analítico. O direito é não linear, intuitivo e holístico. [...] Actualmente, as capacidades-chave da era anterior, as competências do lado esquerdo do cérebro que serviram de motor à Era da Informação - continuam a ser necessárias, mas já não são suficientes. E as capacidades que antes menosprezávamos ou víamos como "frívolas" - as características
de inventividade, empatia, bom-humor e busca do propósito da vida - serão cada vez mais importantes para determinar o êxito ou o fracasso de alguém."

Admitindo este princípio, teremos como principal desafio passar de uma lógica textual para uma lógica contextual. Isto significa uma comunicação que opta por mais imagem e menos texto, uma história em vez
de uma teoria, interfaces mais intuitivos e menos lógicos. Embora a tese de Daniel H. Pink seja de uma enorme relevância contemporânea, não deixa de ser curioso que, há um século atrás, tenha surgido a psicologia
da Gestalt, cuja teoria assenta na análise ao comportamento natural do cérebro para concluir que a percepção sobre uma organização formal corresponde a uma leitura em simultâneo de todas as partes como um todo,
e, não à leitura objectiva e separada das suas partes para se perceber o todo. A Gestalt é, sem dúvida, a parte direita do cérebro. E, em alemão, significa - design -.

Outro sinal da crescente importância do hemisfério direito do cérebro foi a iniciativa de debate organizada pelo MoMA / SEED, em 2006, que culminou num projecto de natureza experimental com o metafórico título - Elastic Mind - uma mente capaz de aproximar o homem da ciência, de forma flexível e não abrupta. Este projecto deu origem a novos conceitos de design que, focalizados nas grandes mudanças científicas, tecnológicas e sociais do nosso tempo, despoletaram formas inéditas de pensar em ambiente de equipa multidisciplinar, de interagir com os objectos, e, de comunicar. A conclusão desta iniciativa aponta o design como solução para criar
o desejado elo entre a ciência e as pessoas. Só este, pode proporcionar um fruir mais humanizado dos novos paradigmas científicos e tecnológicos. Design, é sem dúvida, a principal ideia para transformar a comunicação. No entanto, considero redutora a actual definição de design, para já não falar da percepção social e económica que dele ainda existe, tendo em conta as projecções acima descritas. Quando falamos na necessidade
de redesenhar a sociedade, as cidades, as organizações e o nosso estilo de vida, não estamos propriamente
a falar de projectar uma cadeira, um cartaz, uma revista, um site ou um logótipo. Por isso, nestes últimos tempos na Albuquerque, lançámo-nos à tarefa de redefinir design. O resultado levou-nos a ter que redesenhar o nosso modelo de negócio, o processo de envolvimento do cliente no projecto e a redefinir o nosso core que passou
a ser: Designing Business. Reportando-me aos princípios defendidos por Daniel H. Pink, poderei afirmar que transportámos a cultura de projecto do hemisfério esquerdo para o hemisfério direito do cérebro.
O futuro da comunicação assim o exige.

Encontro Luso-Espanhol de Fundações
Fundação Eugénio de Almeida, 15 Outubro 2009